quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

A mãe da mãe de minha mãe ...: uma genealogia matrilinear

A mãe da mãe de minha mãe ...: uma genealogia matrilinear

Autoria de
Diego de Leão Pufal

[dúvidas, acréscimos e correções, escreva para
diegopufal@gmail.com]

[Esta publicação pode ser utilizada pelo(a) interessado(a), desde que citada a fonte: PUFAL, Diego de Leão. A mãe da mãe de minha mãe ...: uma genealogia matrilinear, in blog Antigualhas, histórias e genealogia, disponível em http://pufal.blogspot.com.br/]

[publicado em 27/12/2017]

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De acordo com Aurélio Buarque de Holanda Ferreira[1] o vocábulo matrilinear é “relativo aos parentes por linha exclusivamente feminina” ou “relativo a descendência por linha materna”. Assim, a linha matrilinear refere-se à pesquisa da linhagem da família da mãe da pessoa investigada, buscando-se sempre o ramo da mãe da mãe (avó), da mãe da avó (bisavó) e assim por diante.
Antes dos testes de DNA, a genealogia matrilinear era tida como a mais acertada e genuína, justamente porque a maternidade não se presume, o mesmo não se podendo dizer com relação à paternidade. Nesse sentido é corrente a existência de filhos fora do casamento, por exemplo, cujo verdadeiro pai somente foi (ou é) revelado anos após o nascimento da criança, quando o foi (ou é), ou cujo pai é desconhecido, afora outras variadas situações. Por outro lado, ainda que em algumas pesquisas realizadas o nome da mãe apareça como “incógnito”, mas de pai conhecido, via de regra o motivo é bastante lógico: esconder a maternidade, muitas vezes revelada ao longo das gerações seguintes.
No caso da minha genealogia matrilinear, consegui, contando comigo, retroceder a doze gerações. Infelizmente não foi possível prosseguir além disto, que remonta aproximadamente a década de 1670, por não existirem alguns registros eclesiásticos da ilha do Faial, que integra o Arquipélago dos Açores, em Portugal.
Desta pesquisa, contudo, há vários destaques, como o retroceder na história familiar cerca de 350 anos até os dias de hoje, além de saber que estas ancestrais fizeram parte das primeiras levas da imigração açoriana para o Rio Grande do Sul, no século XVIII. Já em solo gaúcho, a exemplo de outros ilhéus, estas mulheres percorreram e se movimentaram por um vasto território, com a peculiaridade de que, como até os dias atuais, perderam o sobrenome paterno.
Justamente por isto, ou seja, pelo não conhecimento e esquecimento a que famílias pertenceram estas mulheres, julgo ser de suma importância que se busque saber sobre estas linhas. Enquanto levamos o sobrenome paterno às gerações seguintes, os apelidos maternos acabam por cair no esquecimento, por onde se perde sem dúvida grande parte da história familiar.
Assim que, como resgate histórico genealógico, veiculo hoje a minha genealogia matrilinear:

1. MARIA LUÍS, nascida cerca de 1670 na cidade da Horta, na ilha do Faial, Açores, e já falecida em 31/08/1705, quando seu marido casou-se em segundas núpcias. Maria viveu nos arredores da igreja de N. Sra. da Conceição, na Horta, como constam nos registros de casamento de seus filhos. Embora não tenha encontrado elementos que confirmem a hipótese, é possível que seu viúvo tenha se casado com a cunhada Catarina Luís. Se acertada esta hipótese, Maria seria a mesma nascida a 20/08/1673 na Horta, batizada na igreja de N. Sra. das  Angústias, filha de Manuel Luís e Maria de Azevedo. Maria Luís casou-se em meados de 1690, talvez na Horta (Conceição), com ANTÔNIO DE GOUVEIA, ali nascido cerca de 1660 e já falecido em 09/11/1718. Antônio casou-se a segunda vez, a 31/08/1705 na igreja de N. Sra. das Angústias, na Horta, com Catarina Luís, ali nascida a 18/06/1679, filha de Manuel Luís e Maria de Azevedo. Maria e Antônio foram pais, além de outros, de:
2. MARIA LUÍS, nascida cerca de 1696 na cidade da Horta, na ilha do Faial e falecida a 08/12/1746 na freguesia de Pedro Miguel, na mesma ilha, com cinquenta anos “pouco mais ou menos”, viúva, recebeu os divinos sacramentos, tendo sido sepultada no adro da parte do norte da igreja local e não fez testamento por ser pobre. Casou-se a 15/08/1710 na freguesia de Pedro Miguel com ANTÔNIO ALVERNAS (ou Alvernaz ou Albernaz/s), ali nascido cerca de 1692 e onde faleceu a 08/01/1742 com 50 anos mais ou menos, sem testamento por ser pobre, foi sepultado junto a pia de água benta na igreja local. Antônio Alvernas foi casado em primeiras núpcias com Helena Silveira, falecida por volta de 12/07/1710 em Pedro Miguel, pois foi achada morta “no mar, onde avia caído a uns coatro dias” (sic). Pela idade de Antônio, acredito tenha ele casado em 1710 com Helena, cujo registro, porém, não foi encontrado a fim de prosseguir em sua linha ascendente. Em Pedro Miguel houve outros dois Antônio Alvernas[2],[3] com os quais não encontrei o parentesco. Além disso, o sobrenome Alvernas e variantes é corrente na ilha do Faial, de cuja família descendo por inúmeras vezes, sem, contudo, encontrar a ligação entre os respectivos antepassados, pela falta de registros. Maria Luís e Antônio Alvernas foram pais, afora outros, de:
3. INÊS FRANCISCA, nascida 16/02/1730 na freguesia de Pedro Miguel, onde foi batizada a 21 do mesmo mês, tomando o nome da madrinha Ignes de Santo Antônio. Inês emigrou para o Brasil na segunda metade da década de 1750, ao que tudo indica desembarcando em Florianópolis/SC e depois migrada para Rio Grande, no Rio Grande do Sul, onde faleceu prematuramente aos 15/10/1761, com cerca de 30 anos, muito pobre. Não consegui descobrir ainda se Inês veio casada dos Açores ou se casou no Rio Grande do Sul com MANUEL DUTRA DE MEDEIROS, nascido a 07/05/1725 na freguesia de Cedros, na ilha do Faial, Açores, filho de João Pereira Machado e Maria Garcia de Mendonça de Medeiros. Inês e Manuel tiveram a filha:
4. ANA INÊS FRANCISCA, nascida a 28/10/1759 em Rio Grande, Rio Grande do Sul, Brasil, depois migrada para a região de Rio Pardo, onde a 07/05/1773 casou em primeiras núpcias com João Soares Coelho, batizado a 16/09/1753 em Viamão/RS, filho de José Coelho Machado (nascido na freguesia dos Altares, na ilha Terceira, Açores) e de Ana Micaela (nascida na freguesia de Rosais, ilha de São Jorge, Açores). Ana casou-se em segundas núpcias também em Rio Pardo/RS a 07/07/1784 com GREGÓRIO FRANCISCO DA SILVEIRA (no casamento consta como Gregório Leite Ferreira), batizado em Rio Pardo a 17/05/1761, onde também faleceu a 07/01/1821, filho de Manuel Francisco da Silveira ou Manuel da Silveira de Quadros (nascido na freguesia da Urzelina, ilha de São Jorge, Açores) e Josefa Isabel ou Josefa Francisca de São Francisco (nascida na freguesia de Pedro Miguel, ilha do Faial). Gregório e Ana tiveram 11 filhos, dentre eles:
5. INÊS FRANCISCA DA SILVEIRA, batizada a 12/08/1787 em Rio Pardo/RS e falecida a 16/07/1861 em Santa Maria/RS, com 80 anos mais ou menos. Ignes Francisca como consta da documentação estabeleceu-se com o marido e filhos em Dilermando de Aguiar, hoje município, mas à época segundo distrito de Santa Maria, onde teve terras na Porteirinha. Casou-se a 07/11/1803 em Rio Pardo/RS com VICENTE PERES DA SILVA, batizado a 26/05/1785 em Rio Pardo e falecido a 23/08/1847 em Santa Maria/RS, filho de João Peres da Silva (nascido em São José ou em Florianópolis/SC) e de Rita Lopes de Carvalho ou Rita Maria de Jesus (nascida em Rio Pardo em 1763). Foram encontrados 12 filhos de Vicente e Inês, dentre eles:
6. EUGÊNIA FRANCISCA DA SILVEIRA, batizada a 09/02/1806 em Rio Pardo/RS e falecida a 21/01/1885 em Santa Maria/RS, onde se casou a 20/01/1836 com SALVADOR DE SOUZA LEAL, batizado a 1º/11/1818 na Lapa, Paraná e falecido a 13/11/1911 em Dilermando de Aguiar/RS, filho de Luciano de Souza Leal e Escolástica Maria de Oliveira. Salvador faleceu com 96 anos (sic), de morte natural, branco, casado, capitão da Guarda Nacional e criador em Dilermando de Aguiar, onde tinha terras na Porteirinha. Eugênia e Salvador tiveram ao menos seis filhos, dentre eles:
7. BELARMINA FRANCISCA DA SILVEIRA, nascida a 02/02/1845 em Santa Maria/RS, possivelmente em Dilermando de Aguiar e falecida a 19/7/1930 no Capão da Chácara, em Dilermando, aos 86 anos, de gripe. Casou-se a 19/02/1860 em Santa Maria/RS com PLÁCIDO MARTINS ALVES, ali batizado a 28/11/1834, com mês e meio e falecido a 16/3/1923 em Dilermando de Aguiar, filho de Antônio Martins de Moraes e Maria Dias Cortes (citados neste blog em: http://pufal.blogspot.com.br/search/label/fam%C3%ADlia%20Moraes%2FMorais). Plácido foi juiz de paz e criador em Dilermando de Aguiar, deixando 15 filhos, dentre eles:
João Laureano da Silva e
Placidina Martins da Silveira 
8. PLACIDINA MARTINS DA SILVEIRA, nascida a 10/10/1877 em Dilermando de Aguiar/RS e falecida a 28/7/1921 em São Gabriel/RS. Casou-se a 05/07/1896 em Dilermando de Aguiar/RS com JOÃO LAUREANO DA SILVA, nascido a 10/05/1871 em Cacequi/RS e falecido a 23/3/1936 em Pau Fincado, São Gabriel/RS, filho de João Lauriano da Silva e Francisca Alves de Oliveira (citados neste blog em: http://pufal.blogspot.com.br/2014/03/familias-portuguesas-nas-missoes-os.html). João foi fazendeiro, criador e teve 11 filhos com Placidina, dentre eles, a minha bisavó:
9. CELINA LAUREANO DA SILVA, nascida a 05/09/1898 em Dilermando de Aguiar/RS e falecida a 18/10/1984 em Porto Alegre/RS. Casou-se a 04/09/1915 em São Gabriel/RS com seu primo terceiro MÁRIO DA SILVA BRASIL, nascido a 02/3/1889 no Rincão dos Brasil, Boca do Monte, Santa Maria/RS e falecido a 02/11/1962 em Porto Alegre, filho de José da Silva Brasil e Maria José Alves de Oliveira, tratados neste blog em inúmeras postagens. Mário foi engenheiro civil e professor catedrático da atual Universidade Federal do Estado do Rio Grande do Sul, deixando livros publicados, além de poesias que veiculo no blog com frequência. Mário e Celina tiveram 7 filhos, dentre eles minha avó:
10. M. L. BRASIL, nascida em Porto Alegre, onde casou com N. A. DE LEÃO, com quem teve dois filhos, dentre eles:
11. D. B. DE LEÃO nascida em Porto Alegre, onde casou com H. L. S. PUFAL, com quem teve quatro filhos, dentre eles:
12. DIEGO DE LEÃO PUFAL.

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FONTES DE PESQUISA:
- Arquivo da Cúria de Santa Maria: livros de batismos, casamentos e óbitos de Santa Maria.
- Arquivo Histórico da Cúria Metropolitana de Porto Alegre: livros de batismos e casamentos de Rio Pardo; livros de batismos de Viamão.
- Arquivo pessoal de Diego de Leão Pufal, Helder Oliveira e João Simões Lopes Filho.
- Centro de Conhecimento dos Açores – disponível em http://www.culturacores.azores.gov.pt/default.aspx
- CITCEM – Centro de Investigação Transdisciplinar. Cultura, espaço e memória. Grupo de história das Populações. Disponível em http://www.ghp.ics.uminho.pt/software.html
- FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. Coordenação de Marian Baird Ferreira, Margarida dos Anjos. Curitiba: Positivo ed., 2008.
- JACCOTTET, Alda M. de Moraes e MINETTI, Raquel Dominguez de. Diáspora Açoriana. Açorianos na Vila do Rio. Grande de São Pedro antes da invasão espanhola. Edição das autoras, 2002.
- LDS (igreja mórmon): livros de batismos da Lapa/PR e livros do registro civil de Dilermando de Aguiar/RS.




NOTAS:
[1] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Aurélio: o dicionário da língua portuguesa. Coordenação de Marian Baird Ferreira, Margarida dos Anjos. Curitiba: Positivo ed., 2008, p. 331.
[2] Antônio Alvernaz, nasceu em Pedro Miguel por volta de 1680, filho de Mateus Alvernaz (n. 1658, Pedro Miguel) e Isabel Gonçalves, ali casados a 10/06/1679, neto paterno de Antônio Alvernaz (n. cerca de 1625) e Maria da Terra. Este mesmo casal Antônio Alvernaz e Maria da Terra foram pais ainda de Maria da Terra, nascida em Pedro Miguel, onde casou a 17/10/1678 com Francisco de Faria Sarmento, cujo neto, Manuel Nunes, foi padrinho de uma das filha de Antônio Alvernaz e Maria Luís. Aquele Antônio Alvernaz também foi padrinho de batismo de uma das filhas de Antônio Alvernaz e Maria Luís, surgindo a hipótese de que Antônio Alvernaz (casado com Maria Luís) talvez fosse um terceiro filho ou neto de Antônio Alvernaz e Maria da Terra.
[3] O outro Antônio Alvernaz nasceu na freguesia da Ribeirinha, ilha do Faial e foi casado com Maria Duarte, nascida em Pedro Miguel, casal que acreditava fosse o mesmo Antônio Alvernaz e Maria Luís. Porém, embora não tenha encontrado o registro de casamento deles também, abandonei a hipótese por duas razões: o sobrenome de Maria Luís não variar nos registros de batismos e casamentos dos filhos, no caso para Duarte, e os locais de referência de nascimento de cada qual, enquanto o meu antepassado Antônio Alvernaz é dito nascido em Pedro Miguel, o outro, na Ribeirinha, o mesmo se sucedendo com relação à Maria Luís, nascida na cidade da Horta, e Maria Duarte, nascida em Pedro Miguel. O casal de Antônio Alvernaz e Maria Luís teve ao menos 4 filhos emigrados para o Rio Grande do Sul: José Albernaz/Alvernaz (nascido a 18/3/1735 em Pedro Miguel); Raimundo Alvernaz (n. 1º/1/1738 em Pedro Miguel, casado em Triunfo e depois em Viamão, no Rio Grande do Sul), Josefa Maria Albernaz, nascida a 9/4/1740 em Pedro Miguel, casada com Antônio de Azevedo Saldanha, no Rio Grande do Sul) e Domingos, nascido a 8/10/1744 em Pedro Miguel).

2 comentários:

Regranature Natureza disse...

Prezado Diego , muito me emocionou lendo a sua obra sobre a Casa Genta.Tive o privilégio de ter sido meu primeiro emprego de carteira assinada.Foi de 1974 a 1982 , então era jovem , entrei com 18 anos , comecei no balcão , com o Sr. Luiz Moura (falecido) e minha chefe a DNA.Evinha.Num mutirão que entrou noite a dentro , ajudei a desmanchar a frente antiga , para ser feita a nova de vidros temperados que acho tem até hj.Conheci os artistas ,que trabalhavam lá em cima , adorava qdo tinha que ir pegar uma encomenda só pra vê-los trabalhando.Tive muito prazer em trabalhar na Genta, meu cunhado Alceu M Fraga , já trabalhava nos acessórios a bastante tempo , ele que me indicou.Olha não haveria espaço pra contar tudo o que vivi lá , foi uma das melhores fases da minha vida.Desculpe se me alonguei , mas lembro com muito carinho daquela época mágica.Um grande Abraço.Renato G. Brasil.

Diego de Leão Pufal disse...

Bom dia prezado Renato, tenho interesse em tuas memórias sobre a Casa Genta. Podemos falar por e-mail (diegopufal@gmail.com). Abraço, Diego.